Mesmo com a alta do dólar, menor oferta de crédito no mercado e taxas de juros mais altas, a economia brasileira mostra solidez, embora deva apresentar menores índices de crescimento em 2009.
“É só uma crise passageira”. Essa frase foi pronunciada por um investidor durante o colapso do capitalismo ocorrido após um sucessão de desastres econômicos e que teve como ápice a queda da Bolsa de Valores de Nova York, em 24 de outubro de 1929. A partir dos Estados Unidos, ela alcançou a economia de vários países, inclusive o Brasil, onde o principal pilar da economia era a exportação do café. O país, então, viu os valores do seu principal produto despencarem e os créditos serem cortados, ocasionando um efeito dominó, com a derrocada de milhares de fazendeiros e falências no comércio e na indústria.
Após 79 anos o mundo vive a expectativa de outro abalo na economia norte-americana, que enfrenta uma das mais graves crises de sua história. Mesmo que o governo dos Estados Unidos coloque em ação um efetivo plano de resgate de sua economia, os efeitos da crise devem ser sentidos pela economia global pelos próximos dois anos, segundo especialistas.
Em meio a toda essa incerteza e uma onda de pessimismo dos investidores, dificilmente o Brasil sairá ileso de uma crise econômica mundial de maiores proporções. Mas é certo que nunca esteve tão preparado para enfrentar turbulências. O país desfruta de reservas superiores a US$ 200 bilhoes, o PIB cresce a 6,1%, a taxa de desemprego e de apenas 8,1% e o mercado interno ganha novos consumidores, graças às políticas e ao ciclo positivo da economia.
De acordo com o economista-chefe do Banco Schahin, Sílvio Campos Neto, a expectativa é que o país continue crescendo no próximo ano, porém em menor escala. “O país seguirá crescendo mesmo em meio à crise externa pelo fato de atual ciclo positivo estar sendo condicionado principalmente pela forte expansão da demanda doméstica, especialmente pelo comportamento vigoroso dos investimentos.
Por outro lado, haverá sim impactos da crise externa sobre o desempenho da economia brasileira em 2009, por meio do recuo da demanda externa pelas exportações brasileiras e pela redução dos fluxos de capitais em direção ao Brasil”, avalia.
Há consenso entre os economistas de que o país continuará crescendo, mesmo diante de uma desaceleração mundial. Porém, as estimativas para 2009 apontam o percentual de aumento entre 2,5% e 3,5%, o que representa redução de até três pontos precentuais em relação ao resultado esperado para este ano, de 5% a 5,5%.
Paradoxos:
Relatórios sobre investimento Mundial da Unctad (Conferências das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento), divulgando antes do ápice da atual crise financeira, aponta que o Brasil é o quinto país mais atrativo no mundo para se investir.
O país foi o que mais recebeu investimento estrangeiro direito (IED) na América Latina no ano passado, US$ 35 bilhões. Segungo o relatório, os países latino-americanos mais atraentes para os investidores continuarão sendo Brasil, México e Chile. O documento analisa, como parâmetro para esse crescimento, os altos preços do petróleo, das matérias primas e das infra-estruturas no desenvolvimento dos países, além dos investimentos nas fronteiras dessas áreas. Entretanto devido a alta carga tributária e aos estraves burocráticos para abrir e fechar empresas, o Brasil fica no 125º lugar entre os paises onde é mais difícil fazer negócios. Isso é o que aponta o relatório Doing Business 2009, divulgado também recentemente pelo Banco Mundial.
A instituição Pesquisou 181 países para determinar quais são aqueles cujas estruturas regulatórias facilitam a abertura e operação de empresas, o pagamento de impostos e o fechamento de negócios. O relatório crítica ainda a legislação trabalhista brasileira, que limita o tamanho das empresas e reduz o número de empregos.
Empresas brasileiros - quando o assunto é a captação de recursos e a sobrevivência das empresas no país, o certo é que os impactos diretos da crise na economia norte-americana serão sentidos a médio prazo. Apesar das propagandas otimistas de solidez, de fato, os efeitos já se manifestam e as piores consequencias são as mais lentas, pois, mesmo após o retorno a uma virtual estabilidade do sistema, continuarão corroendo, principalmente, as pequenas e médias empresas brasileiras, que lutam pela sobrevivência à custa de empréstimos e financiamentos.
Para o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Reynaldo Passanezi, o Brasil poderá sofrer alguns impactos, mas é necessário que se mantenha a tranquilidade. “As empresas têm de estar conscientes de que o crédito ficará mais escasso e mais difícil de se conseguir e que isso vai perdurar até 2009″, afirmou.
Outro reflexo a ser sentido por empresários nacionais refere-se ao aumento com custos nas linhas para capital de giro e para tocar a ampliação de fábricas - juros médios de 28,4% ao ano, os maiores desde julho de 2006 -, uma vez que o crédito externo secou.
Em linhas gerais, a transmissão da crise financeira para o país poderá ser sentida mais intensamente pela menor demanda das exportações e pela contração da liquidez, o que implicará menores investimentos estrangeiros e menor disponibilidade de recursos para captações externas. “A oferta de crédito no mercado doméstico poderá ser prejudicada por esta piora do ambiente lá fora. Evidentemente, o grau do impacto a ser sentido pelas empresas brasileiras dependerá da duração e da intensidade da crise no exterior, ou seja, de quão profundo será o efeito sobre a economia mundial e quanto tempo o sistema financeiro internacional levará para se recuperar”, afirma Campos Neto.
Outra previsão é que as exportações brasileiras sejam negativamente afetadas. Porém, como ainda há a expectativa de que importantes economias emergentes sigam com bom comportamento, casos de China e Índia, é provável que o impacto sobre a receita total das exportações não seja significativa, podendo ocorrer inclusive nova expansão - embora pequena - em 2009.
Consumo - Os efeitos da crise financeira também são sentidos pelos consumidores brasileiros. A alta do dólar e a menor oferta de crédito, decorrentes do cenário internacional, afetarão o cidadão comum.
Para se ter uma idéia, a recente valorização da modeda norte-americana pode pressionar para cima os custos de produção de fabricantes que utilizam componentes importados. Por isso, o brasileiro passa a pagar mais por itens como eletroeletrônicos. Os produtos vindos de outros países ficam mais caros.
De acordo com o especialista em comércio exterior, Luiz Martins Garcia, a capacidade que o Brasil desenvolveu nos últimos anos de ampliar seus mercados de exportação deve amenizar os impactos da crise no país. “Sabe-se que o Brasil consguiu, nos últimos anos, diversificar de forma um tanto acentuada a gama de países com os quais opera. Mesmo assim, não há sombra de dúvidas de que tanto os Estados Unidos quanto a Europa são altamente representativos, não somente como destino de nossos produtos, mas também como origem de nossas importações”, afima, destacando ainda que, apesar desse fator positivo, a retração da economia norte-americana deverá afetar o crescimento do país.
Na média, os consumidores que se dispuserem a comprar a prazo ou a tomar empréstimos vão arcar com as maiores taxas de juros desde o segundo semestre de 2006: 52,8% ao ano, em média. Operações que antes eram oferecidas sem restrições, como os empréstimos com desconto em folha, praticamente sumiram. No máximo, os bancos estão renovando os financiamentos e, mesmo assim, em prazos menores.
Investimentos - É no mercado financeiro que os efeitos da crise são mais evidentes. Somente para se ter uma idéia, após o estouro da crise, o valor das empresas com ações na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) encolheu R$ 617,8 bilhões. Corretoras e fundos de investimentos tiveram dificuldades para honrar compromissos no pregão paulista. Grandes exportadoras, como a Sadia e a Aracruz Celulose, perderam mais de R$1 bilhão, ao serem surpreendidas com a disparada do dólar em relação ao real.
Estima-se que, na primeira quinzena de setembro, saíram em fuga da Bovespa US$ 700 milhões, entre investidores estrangeiros e nacionais. Alguns deles decidiram se antecipar e sair do mercado de ações. Houve quem comprasse títulos de Petrobrás no início do ano a R$ 40 e tenha visto a cotação bater em R$ 30. Essa depreciação ocorreu mesmo com a descoberta do pré-sal, que aumentará substancialmente as reservas de petróleo produzidas no país.
A perspectiva futura é que em 2009 e economia mundial deva ter um desempenho mais modesto. Setores que exportam prioritariamente para as economias centrais (EUA, Zona do Euro, Japão) podem ser mais afetados. Já as importações do país devem desacelerar o ritmo de expansão, conforme o crescimento da economia brasileira também apresentar moderação nos próximos meses. “Acredito que o dólar, embora se torne mais volátil em meio a uma ambiente de turbulências, não deve apresentar mudança significativa de patamar. Se, por um lado, a menor liquidez global deverá impedir a continuidade da apreciação do real, por outro, as volumosas reservas internacionais fornecem um importante garantia, eliminando pressões especulativas contrárias à moeda doméstica”, conclui Campos Neto.
Fonte: Fenacon em Serviços - Setembro/Outubro 2008